À flor da pele: Discursos das enfermeiras sobre os afetos experimentados na relação com o paciente

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2023
Autor(a) principal: Carrilho, Camila de Araújo
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso embargado
Idioma: por
Instituição de defesa: Universidade Estadual do Ceará
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Link de acesso: https://siduece.uece.br/siduece/trabalhoAcademicoPublico.jsf?id=109523
Resumo: A enfermagem, em boa parte de seus múltiplos campos de atuação, se caracteriza pelo cuidado que desenvolve na permanência junto ao paciente. Tornando-se esse um campo propício à deflagração e mobilização de afeto, ainda persiste o impasse acerca de como a enfermeira pode manejar a relação entre manter um envolvimento ou um distanciamento afetivo. Logo, definimos, enquanto objetivo geral, investigar os afetos experimentados pelas enfermeiras nas relações que estabelecem com os pacientes e as incidências dessa experiência no cuidado prestado. Para isso, elencamos os objetivos específicos: investigar como a questão dos afetos experimentados na relação enfermeira-paciente vem sendo abordada nos currículos de enfermagem; analisar os discursos dos enfermeiras acerca dos afetos experimentados nas relações que estabelecem com os pacientes e suas incidências no cuidado exercido; tecer considerações sobre o lugar dos afetos na relação enfermeira-paciente a partir das noções de transferência e contratransferência da psicanálise. Partimos, então, de um referencial teórico-metodológico da pesquisa em psicanálise, articulada à Análise de Discurso da corrente francesa de Michel Pêcheux, para a análise das entrevistas. Participaram da pesquisa 11 enfermeiras alunas e egressas do Programa de Pós-Graduação em Cuidados Clínicos em Saúde e Enfermagem da Universidade Estadual do Ceará, que tinham atuação na assistência à saúde. A análise levou a identificar duas formações discursivas: a formação biomédica e a humanista. A primeira, atravessada pelo paradigma científico, foi marcada pelos parâmetros de objetividade e neutralidade para se defender dos afetos. Já a segunda, pelos ideais e valores humanistas, como empatia, amor ao próximo, além da busca de fazer o bem. Todavia, foram encontrados pontos de ruptura em suas cadeias discursivas, ao falar mais abertamente sobre os afetos. Assim, conseguiu-se extrair a formação ideológica: o discurso universitário. As enfermeiras colocam o saber científico como agente, estando a serviço dele, revelando, pela metáfora da “máquina”, uma posição de buscar corresponder a um ideal de funcionalidade sem falhas, sob a expectativa de que houvesse um “botão liga/desliga” para os afetos, causando a exclusão do sujeito. No entanto, pela particularidade da Enfermagem de ter um discurso humanista no seu escopo, com recomendações de desenvolver empatia, que corresponde a identificar-se com o outro, as enfermeiras passaram a assumir o lugar de objeto a. A decorrência da inflação dos afetos pela identificação com o outro fez com que elas buscassem um lugar para extravasá-los, recorrendo à fuga ou “válvulas de escape”, saídas que muitas vezes se faziam precárias e que acabavam por esbarrar em sua divisão subjetiva, fazendo surgir sintomas que causavam angústia ou até o adoecimento dessas profissionais. Frente a isso, foram debatidos os efeitos nocivos causados pelo uso da contratransferência como uma ferramenta de tratamento, da importância de que a transferência não seja recíproca, de modo que haja uma certa neutralidade do profissional para que o outro possa ser escutado sem que os afetos se misturem. Logo, concluímos acerca da importância de serem proporcionados espaços para que as enfermeiras sejam acolhidas em suas implicações, que envolvem as vivências de seus próprios afetos.