Influência das secas severas na ocorrência de incêndios florestais e perdas de carbono no Sul da Amazônia, estudo de caso em terras indígenas

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2016
Autor(a) principal: Barros, Heberton Henrique Dimas de
Orientador(a): Fearnside, Philip Martin
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Dissertação
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA
Programa de Pós-Graduação: Ciências de Florestas Tropicais - CFT
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://repositorio.inpa.gov.br/handle/1/5166
http://lattes.cnpq.br/2756811247231319
Resumo: As secas severas que assolam a Amazônia têm sido associadas com o aumento na frequência e intensidade de incêndios florestais e queimadas, em especial na última década onde foi observado o aumento na intensidade e frequência destes eventos de seca ocasionados pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico (El Niño) e do Atlântico Norte (AMO – AtlanticMultidecadalOscillation). Embora mais frequentes em toda a Amazônia, as regiões de fronteira de desmatamento tem demonstrado maior susceptibilidade a ocorrência de incêndios nestes anos afetados por secas severas, pois o fogo tem na atividade antrópica sua maior fonte de ignição. Nas áreas agrícolas já consolidadas entre os estados de Rondônia, Mato Grosso e Amazonas, as matrizes florestais estão concentradas nas Terras Indígenas, onde, nos casos mais extremos, essas florestas formam verdadeiras barreiras dispostas em mosaicos de terras indígenas capazes de inibir o avanço do desmatamento e degradação florestal, pois a conservação das florestas está atrelada a sua luta histórica pelo direito a terra e garantia dos direitos humanos. A estratégia adotada por alguns grupos indígenas nesta região é a formação de blocos de terras indígenas fronteiriças para o fortalecimento da gestão territorial, onde os povos se agrupam em verdadeiros maciços florestais denominados “Corredores Etnoambientais”. Para avaliar os efeitos das secas severas e a interação antrópica na ocorrência de incêndios florestais analisamos dois corredores etnoambientais localizados na tríplice fronteira sob diferentes intensidades de pressão humana baseado nas taxas históricas de desflorestamento e nos sistemas de governança, neste caso as terras indígenas e seu entorno imediato. Para tanto foram analisadas séries temporais de imagens da série do satélite Landsat no período entre 1986-2015 e verificada a ocorrência e reincidência do fogo dentro das terras indígenas e entorno. Por fim, foi realizado o inventário florestal de biomassa para quantificar a redução nos estoques de carbono derivados da recorrência de incêndios florestais dentro das TIs e quantificar as emissões comprometidas e herdadas pela degradação da floresta por incêndios florestais e sua variação interanual frente um cenário de alterações no clima. Embora significativas, verificamos que as relações entre a ocorrência de incêndios florestais com as oscilações e anomalias oceânicas são fracas, com maior influência do AMO (r 2 = 0,209; p < 0,02) no sul do Amazonas e dos eventos de El Niño (r 2 = 0,159; p < 0,03) na região nordeste de Rondônia e noroeste do Mato Grosso. A área sob maior pressão teve uma redução da cobertura florestal 4,9 vezes maior que o corredor sob menor pressão antrópica, impulsionado pelo desmatamento no entorno. Quanto aos incêndios, o corredor sob maior pressão teve uma área de 750.140 ha de florestas queimadas, valor 6,8 vezes superior a área afetada por incêndios no corredor sob menor pressão. As TIs tiveram uma área afetada por incêndios 9,6 vezes menor(r 2 = 0,629) e 4,6 (r 2 = 0,301) do que o entorno nos corredores sob maior e menor pressão antrópica, respectivamente. Nos anos de ocorrência de secas severas as TIs sob maior pressão foram mais afetadas pelo fogo, com uma área média anual 52,8% maior do que a área afetada em anos neutros, enquanto o entorno das TIs teve um aumento de 30,0% na área afetada por incêndios em anos de secas severas. Quando verificamos o efeito dos incêndios recorrentes na perda dos estoques de carbono, observamos que houve uma redução no estoque de biomassa total de 26,6% após o primeiro incêndio, 46,3% após o segundo e 56,0% após o terceiro incêndio (r 2 = 0,732; p < 0,02), com os efeitos mais pronunciados na redução do estoque da biomassa viva acima do solo e aumento do estoque nas árvores mortas em pé. Ao longo dos 30 anos da série analisada estimamos que as emissões brutas comprometidas foram de 11.694,9 ± 6.848,8GgC, sendo 87% referente às perdas líquidas comprometidas pela redução do estoque de carbono na biomassa viva acima do solo e 13,0% permaneceram na área como emissões herdadas pelo acumulo da necromassa. Por fim, verificamos neste trabalho que, embora efetivas na contenção do desmatamento, a área de florestas degradadas por incêndios tem aumentado consideravelmente nas terras indígenas, pois existe uma pressão externa do entorno que é capaz de influenciar radicalmente a cultura destes povos que passa a adotar a matriz econômica do entorno dentro dos seus territórios, alterando suas práticas de cultivo e produção, consequentemente alterando a paisagem e o risco de emissões futuras em anos de ocorrência de secas severas na Amazônia. Tanto é que verificamos as emissões comprometidas aumentam nos anos de secas severas, com acumulo de necromassa em florestas degradadas que continuam a pegar fogo mesmo em anos neutros ande há a ação humana.