Ruidologia: um estudo de poéticas ruidosas no cinema experimental
| Main Author: | |
|---|---|
| Publication Date: | 2024 |
| Format: | Doctoral thesis |
| Language: | por |
| Source: | Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP |
| Download full: | https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27161/tde-27012025-124340/ |
Summary: | Nesse estudo, propomos assumir, como hipótese de trabalho, os ruídos diversos da mediação técnica no cinema como \"recursos intrínsecos\" ao meio, em vez de desconsiderá-los como intrusões ou defeitos. É o repertório do cinema experimental que inspira tal formulação: se há uma \"sinalética\" hegemônica no meio - narrativa, representacional, industrial e comercial - que tende a rejeitar, filtrar e suprimir o que rotula como falha, anomalia e distorção do registro e transmissão de sons e imagens em movimento, há correntes de experimentação que todavia exploram amplamente tais fenômenos. Tratam-se, em suma, de filmes e vídeos que, operando com sinais ruidosos, distinguem-se por sua incorporação intensa de \"defeitos\" técnicos ao longo da criação da obra, transgredindo modelos regulatórios e normativos da engenharia da comunicação e padrões da indústria do entretenimento. Constroem, assim, sistemas audiovisuais que inoculam e produzem ruído, tomando-o por fator positivo e mesmo constitutivo de certas poéticas, buscando suscitar intensidades sensoriais no espectador que, desnorteado de seus hábitos perceptivos de apreensão de uma obra audiovisual, é levado a reconfigurar distinções entre informação e interferência, forma e informe. Considerando uma pluralidade de gestos e estratégias poéticas no cinema experimental que buscam evocar e acomodar tais \"turbulências\" do sinal - em ressonância com propostas epistêmicas que positivam o ruído, como em Michel Serres e Cécile Malaspina - esta pesquisa propõe-se a avaliar e a discernir diferentes modos pelos quais essas práticas estabelecem vínculos e alianças com as perturbações, acidentes e desvios da mediação técnica. Constitui-se, portanto, uma ruidologia, perspectiva que aborda a produção audiovisual partindo do que são tidas como suas más-formas e as poéticas que vêm a emaranhá-las na fatura das obras, como já antecipou Jean-François Lyotard ao falar de um \"acinema\". Tal processo, como disposto no estudo, assume relevância a partir dos filmes ligados às vanguardas históricas na arte, os quais reagiam à depuração técnica e formal do cinema (que seguia rumo às narrativas de longo formato). Desse embate inicial com uma suposta \"linguagem universal\" do cinema, como argumentamos, resultou um \"babelismo\" de abordagens alternativas, em conluio com os ruídos da mediação: observamos desde os \"et ceteras\" estéticos e as \"anamorfoses\" conjugadas por Stan Brakhage e Patrick Bokanowski às rasuras programáticas dos letristas, e das explorações \"infra-semânticas\" dos filmes ditos estruturais e materialistas até fenômenos dos dias atuais, em que práticas audiovisuais experimentais colaboram e dividem espaços de apresentação e plateia com a subcultura da música \"noise\". |
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Ruidologia: um estudo de poéticas ruidosas no cinema experimental-audiovisual noisecinema experimentalexperimental cinemanoiserazão sinal-ruídoruídoruído audiovisualsignal-to-noise ratioNesse estudo, propomos assumir, como hipótese de trabalho, os ruídos diversos da mediação técnica no cinema como \"recursos intrínsecos\" ao meio, em vez de desconsiderá-los como intrusões ou defeitos. É o repertório do cinema experimental que inspira tal formulação: se há uma \"sinalética\" hegemônica no meio - narrativa, representacional, industrial e comercial - que tende a rejeitar, filtrar e suprimir o que rotula como falha, anomalia e distorção do registro e transmissão de sons e imagens em movimento, há correntes de experimentação que todavia exploram amplamente tais fenômenos. Tratam-se, em suma, de filmes e vídeos que, operando com sinais ruidosos, distinguem-se por sua incorporação intensa de \"defeitos\" técnicos ao longo da criação da obra, transgredindo modelos regulatórios e normativos da engenharia da comunicação e padrões da indústria do entretenimento. Constroem, assim, sistemas audiovisuais que inoculam e produzem ruído, tomando-o por fator positivo e mesmo constitutivo de certas poéticas, buscando suscitar intensidades sensoriais no espectador que, desnorteado de seus hábitos perceptivos de apreensão de uma obra audiovisual, é levado a reconfigurar distinções entre informação e interferência, forma e informe. Considerando uma pluralidade de gestos e estratégias poéticas no cinema experimental que buscam evocar e acomodar tais \"turbulências\" do sinal - em ressonância com propostas epistêmicas que positivam o ruído, como em Michel Serres e Cécile Malaspina - esta pesquisa propõe-se a avaliar e a discernir diferentes modos pelos quais essas práticas estabelecem vínculos e alianças com as perturbações, acidentes e desvios da mediação técnica. Constitui-se, portanto, uma ruidologia, perspectiva que aborda a produção audiovisual partindo do que são tidas como suas más-formas e as poéticas que vêm a emaranhá-las na fatura das obras, como já antecipou Jean-François Lyotard ao falar de um \"acinema\". Tal processo, como disposto no estudo, assume relevância a partir dos filmes ligados às vanguardas históricas na arte, os quais reagiam à depuração técnica e formal do cinema (que seguia rumo às narrativas de longo formato). Desse embate inicial com uma suposta \"linguagem universal\" do cinema, como argumentamos, resultou um \"babelismo\" de abordagens alternativas, em conluio com os ruídos da mediação: observamos desde os \"et ceteras\" estéticos e as \"anamorfoses\" conjugadas por Stan Brakhage e Patrick Bokanowski às rasuras programáticas dos letristas, e das explorações \"infra-semânticas\" dos filmes ditos estruturais e materialistas até fenômenos dos dias atuais, em que práticas audiovisuais experimentais colaboram e dividem espaços de apresentação e plateia com a subcultura da música \"noise\".In this study, as a working hypothesis, the diverse noises of technical mediation in cinema are proposed as \"intrinsic resources\" of the medium, instead of being discarded as intrusions or defects. This perspective is inspired by the repertoire of experimental cinema: if there is a hegemonic \"signal-shaping\" practice in the medium - narrative, representational, industrial and comercial - which is bound to reject, filter and suppress what it labels as failure, anomaly or distortions of the recording and transmission of sounds and moving images, there are experimental practices that widely explore such phenomena. We therefore address films and videos which, working with noisy signals, distinguish themselves by their intense embracing of technical \"defects\" along the creative process, transgressing regulatory and normative models that stem from communications engineering and entertainment industry standards. Such works construct audiovisual systems which inoculate and produce noise, establishing it as a positive and even constitutive poetic factor while seeking to trigger certain sensory intensities for spectators who, disoriented from their perceptual habits of watching an audiovisual work, are prompted to reconfigure their distinctions between information and interference, form and formlessness. Considering a plurality of gestures and poetic strategies in experimental cinema which evoke and incorporate such signal \"turbulences\" - resonating with epistemic frameworks that assign a positive value to noise, as discussed by Michel Serres and Cécile Malaspina - this research proposes to evaluate and discern different modalities through which these practices establish bonds and alliances with the disturbances, accidents and artifacts of technical mediation. A noiseology thus takes shape, addressing moving-image productions through what are taken to be their \"bad forms\" and through practices which interweave them into works, as Jean-François Lyotard anticipated when speaking of an \"acinema\". Such processes first became relevant through the film practices of the historical art avant-gardes, which reacted to the technical and formal depuration of cinema towards the long form narrative. From this initial clash with a supposed \"universal language\" of cinema, as this study argues, a \"babel\" of alternative approaches ensued, in collusion with the noises of mediation: ranging from the aesthetic \"et ceteras\" and anamorphosis employed by Stan Brakhage and Patrick Bokanowski, to the programmatic film scrapings of the letterists, and from the infra-semantic explorations of structural and materialist films until current phenomena, where experimental moving-image practices collaborate, share venues and even audiences with \"noise\" music subcultures.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPBorges, Cristian da SilvaSantos, Rodrigo Faustini dos2024-10-16info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27161/tde-27012025-124340/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2025-12-16T12:59:36Zoai:teses.usp.br:tde-27012025-124340Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212025-12-16T12:59:36Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false |
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Nesse estudo, propomos assumir, como hipótese de trabalho, os ruídos diversos da mediação técnica no cinema como \"recursos intrínsecos\" ao meio, em vez de desconsiderá-los como intrusões ou defeitos. É o repertório do cinema experimental que inspira tal formulação: se há uma \"sinalética\" hegemônica no meio - narrativa, representacional, industrial e comercial - que tende a rejeitar, filtrar e suprimir o que rotula como falha, anomalia e distorção do registro e transmissão de sons e imagens em movimento, há correntes de experimentação que todavia exploram amplamente tais fenômenos. Tratam-se, em suma, de filmes e vídeos que, operando com sinais ruidosos, distinguem-se por sua incorporação intensa de \"defeitos\" técnicos ao longo da criação da obra, transgredindo modelos regulatórios e normativos da engenharia da comunicação e padrões da indústria do entretenimento. Constroem, assim, sistemas audiovisuais que inoculam e produzem ruído, tomando-o por fator positivo e mesmo constitutivo de certas poéticas, buscando suscitar intensidades sensoriais no espectador que, desnorteado de seus hábitos perceptivos de apreensão de uma obra audiovisual, é levado a reconfigurar distinções entre informação e interferência, forma e informe. Considerando uma pluralidade de gestos e estratégias poéticas no cinema experimental que buscam evocar e acomodar tais \"turbulências\" do sinal - em ressonância com propostas epistêmicas que positivam o ruído, como em Michel Serres e Cécile Malaspina - esta pesquisa propõe-se a avaliar e a discernir diferentes modos pelos quais essas práticas estabelecem vínculos e alianças com as perturbações, acidentes e desvios da mediação técnica. Constitui-se, portanto, uma ruidologia, perspectiva que aborda a produção audiovisual partindo do que são tidas como suas más-formas e as poéticas que vêm a emaranhá-las na fatura das obras, como já antecipou Jean-François Lyotard ao falar de um \"acinema\". Tal processo, como disposto no estudo, assume relevância a partir dos filmes ligados às vanguardas históricas na arte, os quais reagiam à depuração técnica e formal do cinema (que seguia rumo às narrativas de longo formato). Desse embate inicial com uma suposta \"linguagem universal\" do cinema, como argumentamos, resultou um \"babelismo\" de abordagens alternativas, em conluio com os ruídos da mediação: observamos desde os \"et ceteras\" estéticos e as \"anamorfoses\" conjugadas por Stan Brakhage e Patrick Bokanowski às rasuras programáticas dos letristas, e das explorações \"infra-semânticas\" dos filmes ditos estruturais e materialistas até fenômenos dos dias atuais, em que práticas audiovisuais experimentais colaboram e dividem espaços de apresentação e plateia com a subcultura da música \"noise\". |
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