Estrelas e Ases: o retrato fotográfico em Portugal (1916-1936)

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Main Author: Baptista, Paulo Artur Ribeiro
Publication Date: 2016
Language: por
Source: Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP)
Download full: http://hdl.handle.net/10362/20195
Summary: Desde o final da década de 1910 e durante os anos 1920, a Fotografia Brasil, uma firma de retrato fotográfico de Lisboa, dirigida por Joaquim da Silva Nogueira, introduziu práticas modernas na fotografia portuguesa, praticamente dominada ainda por um gosto Oitocentista que tinha forte presença na maior parte dos estúdios fotográficos portugueses. Lisboa era escala frequente de artistas internacionais que itineravam a América do Sul e, em particular, o Brasil. O trabalho de Silva Nogueira beneficiou das sessões de pose com esses artistas que escalavam Lisboa durante as tournées artísticas. Desde 1920, a Fotografia Brasil tornou-se a principal fornecedora de retratos de artistas para a imprensa ilustrada portuguesa, sedenta de imagens do teatro. As origens da Fotografia Brasil podem justificar, por exemplo, as ousadas sessões com a bailarina e cantora de origem italiana, Adria Rodi, cujas poses audazes foram captadas pelo olhar moderno de Silva Nogueira, surpreendendo a conservadora sociedade portuguesa e introduzindo um novo padrão estético no retrato fotográfico. Muitos dos mais populares artistas de palco portugueses passaram a fotografar-se no seu estúdio e pontuaram as páginas das secções teatrais dos magazines ilustrados partilhadas com as estralas internacionais, que realçavam a modernidade das imagens de Silva Nogueira. Embora a maior parte dos artistas dos palcos portugueses tenham recorrido a Silva Nogueira durante os cinquenta anos de actividade do estúdio, foi durante os anos 1920 que ele se destacou em especiais cumplicidades com alguns desses artistas como Luísa Satanela que protagonizou um papel chave na transformação da cena teatral portuguesa. Satanela introduziu figurinos, cenários e coreografias modernistas nas representações da revista à portuguesa, um género teatral muito popular em Portugal. Silva Nogueira retratou Satanela de forma extensa em séries fotográficas de modernidade surpreendente, inovando sucessivamente num processo invulgar de cumplicidade, dando o mote para uma renovação decisiva da actividade do retrato fotográfico com ênfase no grande plano e na imagem do corpo. Os jovens artistas e intelectuais procuraram afirmar os valores modernistas na conservadora sociedade portuguesa. Destacou-se António Ferro. Como crítico teatral promoveu o modernismo nos palcos, em particular na revista. A campanha que pôs em 3 marcha nos jornais teve considerável sucesso. Mas Ferro usou a mesma abordagem ao intervir na propaganda, a se dedicou ainda antes de assumir a direcção do SPN. António Ferro teve um papel crucial na afirmação da visualidade em diversos âmbitos da sociedade portuguesa, da literatura ao jornalismo, do teatro à política. Na propaganda política nacional, Ferro suscitou a fotografia e o retrato fotográfico, entre outras áreas das artes para afirmar o novo regime, o Estado Novo, bem como os seus líderes, em particular o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar. A afirmação visual do perfil discreto de Salazar representou um desafio particular para Ferro. Em última instância Ferro convocou a capacidade de um fotógrafo moderno, Silva Nogueira para conseguir capturar a imagem oficial de Salazar. Esse retrato esteve presente em todas as repartições públicas e escolas. Por fim, o modernismo, através do retrato fotográfico tinha conseguido assumir-se como a imagem institucional do país.
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As origens da Fotografia Brasil podem justificar, por exemplo, as ousadas sessões com a bailarina e cantora de origem italiana, Adria Rodi, cujas poses audazes foram captadas pelo olhar moderno de Silva Nogueira, surpreendendo a conservadora sociedade portuguesa e introduzindo um novo padrão estético no retrato fotográfico. Muitos dos mais populares artistas de palco portugueses passaram a fotografar-se no seu estúdio e pontuaram as páginas das secções teatrais dos magazines ilustrados partilhadas com as estralas internacionais, que realçavam a modernidade das imagens de Silva Nogueira. Embora a maior parte dos artistas dos palcos portugueses tenham recorrido a Silva Nogueira durante os cinquenta anos de actividade do estúdio, foi durante os anos 1920 que ele se destacou em especiais cumplicidades com alguns desses artistas como Luísa Satanela que protagonizou um papel chave na transformação da cena teatral portuguesa. Satanela introduziu figurinos, cenários e coreografias modernistas nas representações da revista à portuguesa, um género teatral muito popular em Portugal. Silva Nogueira retratou Satanela de forma extensa em séries fotográficas de modernidade surpreendente, inovando sucessivamente num processo invulgar de cumplicidade, dando o mote para uma renovação decisiva da actividade do retrato fotográfico com ênfase no grande plano e na imagem do corpo. Os jovens artistas e intelectuais procuraram afirmar os valores modernistas na conservadora sociedade portuguesa. Destacou-se António Ferro. Como crítico teatral promoveu o modernismo nos palcos, em particular na revista. A campanha que pôs em 3 marcha nos jornais teve considerável sucesso. Mas Ferro usou a mesma abordagem ao intervir na propaganda, a se dedicou ainda antes de assumir a direcção do SPN. António Ferro teve um papel crucial na afirmação da visualidade em diversos âmbitos da sociedade portuguesa, da literatura ao jornalismo, do teatro à política. Na propaganda política nacional, Ferro suscitou a fotografia e o retrato fotográfico, entre outras áreas das artes para afirmar o novo regime, o Estado Novo, bem como os seus líderes, em particular o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar. A afirmação visual do perfil discreto de Salazar representou um desafio particular para Ferro. Em última instância Ferro convocou a capacidade de um fotógrafo moderno, Silva Nogueira para conseguir capturar a imagem oficial de Salazar. Esse retrato esteve presente em todas as repartições públicas e escolas. Por fim, o modernismo, através do retrato fotográfico tinha conseguido assumir-se como a imagem institucional do país.From late 1910’s and throughout the 1920’s the Fotografia Brasil, a Lisbon commercial portraiture studio, led by Joaquim da Silva Nogueira, introduced modernist practices in Portuguese photography, still dominated by late 19th century taste that had a strong expression in most Portuguese photographic studios. Lisbon was then a frequent scale to South America, and especially to Brazilian ports. The work of Silva Nogueira benefited a lot from the posing sessions with foreign artists that scaled Lisbon during their artistic tours. Since 1920, Fotografia Brasil became the leading supplier of artist portraits to the Portuguese illustrated press eager of pictures from theatrical activity. The background of the Fotografia Brasil photographic portraits activity may justify, for instance, the daring photo sessions with the Italian born dancer and singer Adria Rodi, whose audacious poses captured by Silva Nogueira’s modern photographic look surprised the conservative Portuguese society and established a model to the changes in photographic portrait practice. Photographs of other popular artists soon started to be regularly published in special sections of illustrated magazine face to face with international stars highlighting Silva Nogueira’s modern portraits. Though most of Portuguese stage artists called upon the services of Silva Nogueira throughout fifty year of his studio’s activity, it was during the 1920’s that he stood out establishing a special relationship with the actress, singer and dancer Luísa Satanela who played a key role in the transformation of the Portuguese theatrical scene. Satanela introduced modernist design costumes, sceneries and dancing choreographies in the stage performances of revista, a theatrical genre quite popular in Portugal. Silva Nogueira extensively portrayed Satanela in surprisingly modern photographic series, innovating over and over in an unusual complicity process, setting the pace for the decisive renewal of the Portuguese photographic portrait activity with emphasis in close-up and body image. Portuguese young artists and intellectuals tried to assert modernism in Portuguese’s conservative society. António Ferro stood out in this role. As theatre critique he promoted modernist taste in theatrical productions, particularly in light theater. The campaign Ferro carried out in the press gave noticeable results. A transformation in theatre was noticed closing it to the cosmopolitan international productions. But Ferro also followed the same form of intervention in political propaganda, to which he started to devote himself even earlier of his nomination as director of the National Propaganda Secretariat. António Ferro had a crucial role in visuality’s assertion in different aspects of the Portuguese society, from literature to journalism, theater and particularly politics. In national political propaganda, Ferro called upon photography and photographic portrait among other areas of visual arts to disclose the new regime, the Estado Novo, as well as his leaders, particularly the Prime Minister Oliveira Salazar. The assertion of Salazar’s visual discreet profile represented a major challenge to Ferro. Ultimately Ferro called the skills of the modernist photographer Silva Nogueira to succeed in capturing the official image of Salazar. That portrait stood in every governmental office and school. Finally modernism, throughout photographic portrait stand out as Portuguese’s institucional image.Brito, Margarida Acciaiuoli deRUNBaptista, Paulo Artur Ribeiro2019-09-21T00:30:24Z2016-09-212016-10-262016-09-21T00:00:00Zdoctoral thesisinfo:eu-repo/semantics/publishedVersionapplication/pdfhttp://hdl.handle.net/10362/20195TID:101331193porinfo:eu-repo/semantics/openAccessreponame:Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP)instname:FCCN, serviços digitais da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologiainstacron:RCAAP2024-05-22T17:24:51Zoai:run.unl.pt:10362/20195Portal AgregadorONGhttps://www.rcaap.pt/oai/openaireinfo@rcaap.ptopendoar:https://opendoar.ac.uk/repository/71602025-05-28T16:56:06.942241Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP) - FCCN, serviços digitais da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologiafalse
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