Entre pedras, prostituição e lamas: um estudo sobre as experiências das usuárias de crack em Santo Amaro, Recife/PE

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2017
Autor(a) principal: ASSIS, Mércia Cristina da Silva
Orientador(a): LIMA, Rosa Maria Cortês de
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Dissertação
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Universidade Federal de Pernambuco
Programa de Pós-Graduação: Programa de Pos Graduacao em Servico Social
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Brasil
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/32291
Resumo: A presente pesquisa teve o objetivo de analisar as relações entre o consumo de crack e prostituição de mulheres nos manguezais nas proximidades da Avenida Artur Lima de Cavalcanti, nomeada pelos sujeitos da pesquisa por Chupa-chupa, no bairro de Santo Amaro, em Recife, Pernambuco. Para tanto, a pesquisadora acompanhou mulheres inseridas no Programa de Atenção Integral aos Usuários de Drogas e seus familiares (ATITUDE), que presta assistência aos/às usuários/as de crack e outras drogas. O contato com as usuárias de crack, através do programa, possibilitou a construção de vínculos e diálogos que resultaram em oito entrevistas realizadas nas unidades de acolhimento e nas ruas e manguezais do bairro de Santo Amaro. Optou-se pela análise de natureza qualitativa, por compreender que tal abordagem possibilitaria explicar em profundidade os significados e características do fenômeno estudado. Dessa forma, foram realizadas análises a partir da perspectiva de gênero, levando em consideração a intersecção dessa categoria com as dimensões de raça e classe social. Tal abordagem permitiu compreender as diferenças, hierarquias e assimetrias que atravessam o cotidiano de mulheres e que perduram, inclusive, nas abordagens cientificas sobre a temática. Essas questões estão eivadas de complexidades nos marcos do capitalismo contemporâneo, pois é no advento desse modo de produção que o consumo de substâncias psicoativas ganha novos contornos, gerando, inclusive, consumos danosos para saúde e para segurança pública. Santo Amaro é historicamente lugar de contrastes e contradições, revelando elevados índices de pobreza que perduram coexistindo lado a lado com áreas de expressiva riqueza da capital pernambucana. Assim, esta pesquisa também reflete sobre os determinantes históricos que dão forma ao bairro. Os resultados apontam que as trajetórias das mulheres são marcadas pelas múltiplas violências situadas desde o período da infância, perpassando a adolescência e perdurando na fase adulta. Além disto, as violências sofridas são reflexo da ausência de direitos básicos como o acesso à moradia, educação, saúde e emprego/renda. Essas mulheres fazem parte da produção do espaço urbano em meio a um complexo cenário de relações sociais banhadas pelas múltiplas desigualdades. A partir dos seus relatos, foi possível enfatizar as múltiplas experiências que elas vivenciaram, afastando pressupostos essencialistas no que tange às identidades femininas. Ademais, através dos relatos, notou-se que a perspectiva que prima por uma suposta natureza feminina amordaça e silencia as pluralidades ao abrir precedentes para violações daquelas consideradas transgressoras dos papéis postos como representativos do gênero que representam. Essas mulheres, no cotidiano, precisam encarar as contradições e assimetrias sociais de gênero, quando são culpabilizadas por não corresponderem às expectativas sociais, impostas ao universo feminino, seja nos papéis sociais de mães ou de esposas, ou quando tomam as ruas e são acusadas como moralmente inferiores. Tais assimetrias, naturalizadas e eivadas de justificativas biológicas, colocam as mulheres em condição de desviantes, de destoantes da moral e de responsáveis pelas condições em que vivem. A sociedade não leva em consideração, portanto, os obstáculos materiais e simbólicos enfrentados por elas nas distintas classes sociais, com mais evidência e violência para as mulheres mais empobrecidas. Por fim, ao localizar a prostituição nesse contexto de consumo de crack, as condições se asseveram, pois, ao manterem relações ininterruptas e intensas com as drogas, os corpos sofrem com o estigma radicalmente relacionado com o lugar que ocupam, espaços que revelam marcas de suas condições enquanto mulheres na cidade.